A tarde vai embora mais rápida que o habitual. Escuridão. Noite vem me atormentar e com ela o vento frio do outono.
O peito apertado, sem espaço para o coração bater, o estômago doendo, vontade de gritar, chorar, sumir, fechar os olhos e não mais abrir.
Chego no parque, as luzes amarelas trazem um ar de aconchego, sento em um banco, deixo o frio despertar o meu corpo, o vento parece feito de minúsculas agulhas que atingem minha alma.
Fecho os olhos, o choro não vem. Solidão.
- Isso que dar entregar sua felicidade nas mãos de alguém.
Ouço a voz ao meu lado, lá está ela com seus olhos amarelados, seu sorriso acolhedor e suas palavras que nem sempre quero ouvir, mas ela fala mesmo assim.
- Você pode até se alegrar com ele, mas ele nunca a fará feliz, ninguém tem esse poder, principalmente depois do feitiço que fez quando era criança, se você se arrependeu, encontre uma forma de quebrá-lo, colocar a responsabilidade em outra pessoa pode ser o caminho mais fácil, porém não é o correto.
As lágrimas então explodem do meu peito, raiva, saudade, tristeza. Saudade do que ainda não vivi, raiva de mim mesma por sempre cometer os mesmos erros, desperdiçar as boas oportunidades por medo, medo.
- Estou cansada de viver tão sozinha.
- Você não está sozinha, estou aqui menina, vem, deite no meu colo e chore. Eu amo você e sempre vou lhe proteger.
- Achei que você amasse mais a ele.
Sorrindo ela me diz:
- Não menina. Sempre serei grata por ele ter me libertado da prisãoq ue você me colocou. Mas amo mais a você, somos praticamente uma, esqueceu? Eu o desejo e ficarei muito alegre ao lado dele, mas não preciso dele para ser feliz.
- Queria que a ausência dele não doesse tanto, será que um dia eu aprendo?
- Espero que sim. Venha aqui, às vezes você parece voltar a ser aquela meninas de 5 anos que acordava assustada chorando de algum sonho, deite aqui e seja minha força, minha coragem, meu amor.
Sinto seu pelo macio me aquecer, seu cheiro forte de mata, de terra doce. As lágrimas brotam como cachoeira.
O telefone toca me trazendo a outra realidade, mas não é ele.
- Oi Mestre.
- O que está acontecendo a minha discípula preferida?
- A mesma saudade de sempre...
A conversa segue como das outras vezes, mas dessa vez ela fala menos, ele já havia me ensinado tudo o que eu precisava e eu ainda me recordo bem de suas palavras.
- Durma e eu irei até você hoje, lhe abraçar e levar seu espírito até meu mundo.
Mestre, embora às vezes eu tenha vontade de xingá-lo, ele sempre vem quando preciso, com suas palavras doces, seu colo quente, seu cheiro de sandalo.
Retiro o dragão do meu pescoço, essa noite ele não virá me visitar.
Fecho os olhos e vejo meu mestre chegar.
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