A noite descia, o frio aumentava. Os sons da floresta mudaram, o balanço das folhas pelo vento, grilos, corujas e outros animais saiam na melhor hora do dia.
A garoa chegou de mansinho e as nuvens vieram visitar a terra, umedecer a mãe querida.
Uma loba estava mais quieta do que o costume, seus ouvidos se acostumavam aos sons, seus olhos se adaptavam a escuridão. Estava livre, depois de anos e anos trancada. Seus pelos estão mais curtos, não a protegem tanto do frio, suas pernas ainda estão fracas e depois de ter comemorado sua liberdade correndo pelas matas, agora ela sentia o cansaço.
"Por que a força da matilha é o lobo e a força do lobo é a matilha", lembrou ela, mas ela estava sozinha, não tinha nenhum lobo ao lado dela e o outono estava passando rápido, logo o inverno viria. Ao seu lado apenas uma criança, que mal sabia cuidar de si mesma, como iria cuidar de uma loba ferida? lembrava que precisava ser forte, fria e não derrubar nenhuma lágrima.
Havia um lobo sim, um negro, que uivava ao longe tentando mostrar o caminho a ela, mas ela sabia que ele estava muito longe e o caminho até ele era cheio de obstáculos e perigo. Olhava para criança ao seu lado, será que ela a ajudaria ou a atrapalharia mais uma vez? às vezes sentia vontade de matá-la, mas não podia, a amava e prometera lhe proteger e matá-la significava sua morte, não que ela tivesse medo de morrer. Ela sentia vontade de chegar até o lobo, mas a menina era tão medrosa, será que um dia ela cresceria?
Mas hoje, ela não queria caminhar, queria apenas um colo, descansar, às vezes lembrava de quando estava presa, apesar de não poder correr ela nunca estava sozinha, mesmo assim, não se queixava, liberdade era seu maior sonho, será que era pedir muito uma companhia?
Ficou em baixo de uma grande árvore, enrrolou-se, a menina sentou ao seu lado, fazendo carinho em sua cabeça e cantando baixinho. Então, seu coração foi se acalmando, sua respiração diminuiu, sentia o vento frio cortar sua alma, o cheiro da terra molhada, ouvindo a canção da mata. Desejou ver a lua, sua mãe e então seus olhos se fecharam.
Ela apareceu linda com seus cabelos prateados e sua pele de vento:
- Luna, porque choras minha filha?
- Não tenho mais lágrimas, minha mãe, olha o que fizeram comigo, meus pelos não serão mais prateados como seus cabelos, meu uivo nunca mais será o mesmo, um lobo não vive muito tempo sozinho.
- Estarei sempre com você minha doce filhote, leva o meu nome e a minha força, lembre-se disso e nunca mais ficará sozinha.
Uma loba cinzenta dormia aos pés de uma árvore, junto a uma menina que lhe deu um beijo e sussurrou em seu ouvido: amo você, de seus olhos rolava uma lágrima, de sua boca nascia um leve sorriso. Quem poderia adivinhar o que ela sonhava?
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