"Inventei mil paisagens no teu peito, rebentei de loucura e fantasia quando me olhavas devagar com esse jeito e eu descobri tanta coisa que não vias. (Pedro Barroso - Companheira)"

19 de setembro de 2011

A bruxinha e outro dragão.

A praia mais uma vez deserta. A noite estendia seu manto sobre a terra, céu sem estrelas, uma lua fina no céu estendia seu brilho prateado sobre as pedras. O mar tão escuro quanto a noite se debatia forte contra o rochedo, o vento massageava as folhas das árvores, os elementos em perfeita harmonia.
De cima do rochedo uma bruxa disfarçada de menina, sentindo o vento massagear sua pele prateada pelo brilho da lua, inspirando o cheiro salgado das águas, embalada pelo murmúrio das ondas.
- Sei que está aí, pode aparecer. Diz a bruxinha.
Do meio da noite surge um dragão negro enorme, sua cauda se perdendo em meio a escuridão, seus olhos fitando-a com desejo.
- Olá minha menina, diz o dragão.
- Faz tempo que não me traz aqui, eu gosto desse lugar.
- Claro que gosta, aqui você pode me encontrar.
- Todo dragão é convencido assim? Por que não me deixou vir aqui fisicamente? Por que não encontrei esse lugar?
- Por que você não quis, o dia em que quiser vir aqui, é só me pedir que lhe guio. Diz o dragão se aproximando o suficiente para ela sentir a temperatura mudar e seu coração se acelerar mais e mais. Por que ele a atraia tanto?
- E por que me trouxe aqui hoje? Eu pedi para que se afastasse.
- Você quis estar aqui e sabe que não quer que eu me afaste, não precisa se fazer de difícil comigo, sei que você me ama e aquele a quem protejo.
- E você? Por acaso você me ama?
- Menina, menina, meu protetor se deixou apaixonar por você, eu? digamos que eu amo o que você pode me dar.
- Pelo menos é sincero.
- Queria o quê? O poeta é ele, não confunda. A risada do dragão preenche o ar e a faz arrepiar, seus olhos ficam mais vermelhos.
- O que quer de mim? Você que é o dragão todo poderoso, eu sou apenas uma bruxa tentando não ser.
- Você sabe o que eu quero e não se menospreze, você não é assim. E mesmo eu sendo muito poderoso, eu não tenho tudo, ainda, como você gosta de dizer.
- E a Mestra dele? Você seria mais poderoso perto dela.
- Sim, mas porque ter algo que me custaria tanto se posso ter algo parecido de você a um menor preço.
- Caraca, você sabe ser cruel, me senti a oferta do dia.
- Já lhe disse não esperasse poesias de mim e você sabe bem o que tenho a lhe oferecer e que nós vamos lhe dar aquilo que você sempre desejou e nunca outro lhe deu ou dará, pode tentar fugir, você não irá, não até ter experimentado todas as possibilidades e sabe o porquê.
- Medo ou suspeita de ser verdade, é já ouvi isso outras vezes. E eu sou confusa mesmo, nem sempre sei o que peço ou estou preparada para recebê-lo.
A menina se encolhe com o ventro frio que sopra, seu coração tem tantos desejos, sua alma tem tantas feridas, as lembranças surgem em sua mente, lembranças de um tempo não tão distante e nada feliz, uma lágrima começa a brotar de seus olhos, justo agora? não na frente dele, ela pensa, não posso ser fraca.
O dragão dá um sorriso e seu olhar se suavisa, o sorriso é tão doce, na medida que um dragão pode ser doce, ele se aproxima mais, sua boca poderia engolí-la:
- Vem aqui minha doce menina, não tente disfarçar para mim, eu te aceito, lembra? assim como você é. Vem, vem a mim.
A menina se levanta, seu corpo tremendo de medo e desejo e caminha lentamente pelas rochas para deitar no colo de um dragão negro, sente seu cheiro amadeirado e quente, sente seu hálito esquentá-la e com seu pescoço ele a aninha.
- Feche os olhos e durma, eu serei o seu manto e nada lhe fará mal, chore se tiver vontade, sorria se desejar e deixe eu te levar por essa noite.
A menina fechou os olhos, algumas lágrimas desceram sem destino e aos poucos um sorriso brotou de sua face, enquanto sentia o vento gostoso pelos seus cabelos e voava nas costas de um dragão por lindos lugares e voltava a ser feliz, como um dia fora, como há muito desejava, como sempre era feliz quando estava ao lado dele.
 

 

1 comentários:

Todesangel disse...

Isso me parece estranhamente familiar... Por que será?