O último fio de luz se esvai. O mundo agora é apenas escuridão.
Ela respira fundo e veste o manto tecido pela noite, manto que o seu amor lhe permitia usar vez ou outra. O manto se molda ao seu corpo, tornando-a leve como o ar, seus olhos colorem-se de vermelho e então, ela ouve a voz do guardião do seu amado.
- Vamos correr linda menina? Venha caçar comigo, vem conhecer o meu mundo.
Os passos dela ficam mais rápidos e começa a correr. O chão desaparece sob seus pés, o manto se transforma em asas. Apenas dois pontos vermelhos em meio a escuridão.
Lá embaixo apenas fogo, cinza, terra tão escura quanto a noite.
- Segure-se, diz ele.
Pessoas correndo para todos os lugares, fugindo sem saberem ao certo do quê. Fogo, gritos, sangue.
A menina da capa negra caminha por terras estranhas, seus pés tocam corpos multilados, sente o cheiro de sangue, ouve gemidos de dor, sua boca se enche de água.
- Hora de comer, ela escuta.
Então ela o vê. Seus olhos negros ateus, sua boca convite ao pecado, seu cheiro de armadilha.
Ela o olha com o olhar doce, não tão puro e não tão forte, mas que aos poucos se enche se temor. Ela ainda era a caçadora ou virara a presa?
- Você é minha?, ele pergunta enquanto caminha ao redor dela.
Ela se lembra de tudo o que viveram até ali, todos os lugares por onde caminharam, sabe que dessa vez não adiantava lutar ou tentar fugir.
- Sou, ela diz.
- Você é minha? os olhos dele perguntam a alma dela.
- Sou.
- Você é minha?, ele termina o círculo.
- Sou.
Em um segundo seu corpo se cola ao dela, seus lábios se tocam, seus corpos se unem.
Nesta terra estranha com cheiro de sangue e de ódio, com música de dor e gemidos, onde apenas a escuridão existe.
Ela é a paz que ele precisa, o fio de luz que o guia pela escuridão e o mantém vivo.
Ele é a força que ela necessita, o amor que a faz querer viver, a escuridão que a faz descansar.
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